quarta-feira, 17 de agosto de 2016

As coisas simples que me dão alegria

Não sei bem dizer em que momento me bateu vocação pra dona de casa. Ou para o cultivo da terra. Pode ter sido muito lá atrás, desde que eu era um anfíbio, pode ter sido mais recente, desde que plantei uma pata-de-vaca e fiquei esperando dar flor pra saber se era rosa ou branca. Ou mês passado, quando decidi cultivar minhocas numa caixa, pra dar cabo das cascas de banana que comemos diariamente. Mas a cada dia sinto que cuidar de coisas tão essenciais, como plantar ou cozinhar o alimento me dá um enorme prazer.
Hoje, quando voltei da manicure, com as unhas impecavelmente fluorescentes, pensei em aproveitar a tarde de folga para ter um tempinho só para mim. Mas fiquei meio sem saber o que fazer. Fui colher roupas no varal e vi um manjericão apertado em um vaso pequeno e resolvi replantar no solo. Peguei enxada e fiz uma ligeira bagunça com a terra que voou. Catei tudo com a mão e concluí o replantio. Só lembrei das unhas feitas quando já estava apertando o manjericão na terra. Daí, olhei para elas achando graça desta vaidade. Pensando como é bom pintar as unhas e depois esquecer que elas estão coloridas e meter a mão na massa.
Lembrei de mais umas coisas simples que me aconteceram por esta semana, como a chuva no meio da noite, com trovões, que me fez adormecer quando uma angústia quase clamava por tranquilizantes. As minhocas gordas fazendo terra preta de casca de banana, depois de quase um mês. Os tomates produzindo mais de quilo, a banana botando cacho e eu esperando pra comer o "umbigo". Há uns meses plantamos outra pata-de-vaca aqui na calçada - é uma árvore de crescimento rápido - e hoje, ao sair de casa, vi que o primeiro botão já se abriu e a flor é branca!    
E a melhor parte: Abeille me vendo hoje preparar a salada correu lá fora e veio com a mãozinha cheia de umas couves minúsculas e rasgadas: "Pra você, mamãe." As coisas simples que me dão alegria!

domingo, 19 de junho de 2016

Ansiolítico

Para minhas noites insones 
Para traduzir minhas emoções e acalmar minhas aflições
Manuel, Fernando, Cecília
Poesia


O Apanhador de Passarinhos
(Manoel de Barros)

Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões
Prezo a velocidade 
das tartarugas mais que a dos mísseis
Tenho em mim um atraso de nascença
E fui aparelhado
para gostar de passarinhos


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Paixão pelos tomates


Tomate é coisa que não falta aqui na cozinha. Eles me seduzem, são lindos, sensuais... Uso quase todos os dias, de inúmeras formas. Na omelete, na salada, no sanduíche, nos molhos, nos refogados, nos suflês e por aí vai. Tenho quase uma tara por manter tomates estocados e disponíveis in natura ou cozidos. Já até plantei um tomateiro e faço polinização manual para garantir uma safra produtiva, mas ela nem de longe é suficiente para as minhas necessidades.
Claro que em tempos de crise e com o tomate valendo quase um quilo de carne, muitas vezes eu tenho que reduzir um pouco o meu consumo. Mas quando cai o preço (e o tomate tem uma oscilação incrível), corro e encho uma sacola. Foi o que aconteceu esta semana, em que encontrei tomates grandes e vermelhos a R$ 1,29 o quilo. Quando isso acontece, eu compro muito mesmo e acabo fazendo um panelão de molho e congelo em vários potinhos, pra ir usando de acordo com a necessidade. 
Hoje foi um dia destes em que estava inspirada. Cheguei com a minha sacola de tomates e fiz o molho que serviu de base para preparar um Boeuf Bourguignon (nada demais, faço uma adaptação da receita original na panela de pressão pra ficar mais rápido e amolecer a carne de segunda), rendeu 5 potes de molho para congelar e mais uma sopa deliciosa que está me esperando na panela. Estava com tanto desejo de tomar sopa de tomate que me animei a fazer um pão caseiro para acompanhar. E de quebra, fiz um creminho de baroa para acompanhar a carne no almoço de amanhã. E o freezer cheio de tomates. Viva!

terça-feira, 14 de junho de 2016

Coleção de britas, etc.

Se eu fosse guardar todas as pedrinhas que a Abeille recolhe pelo caminho, já teria uma carregamento de britas para começar a obra. Hoje tive folga das aulas e, devido ao frio que assola o país, resolvi não levá-la à creche. Ao invés disso, fomos dar uma volta pelo bairro para pegar um solzinho e esquentar o corpo. 
Eu tenho essa relação ambígua com o inverno. Eu sou a friorenta. Preciso de um casaquinho à noite, mesmo no verão. Mas quando ele chega assim, com força (o frio), eu fico no fundo torcendo para a temperatura cair um pouquinho mais no dia seguinte. Talvez pelo fato de que por aqui o frio de verdade dura tão pouco tempo que eu quero aproveitar ao máximo as coisas boas. Como este passeio numa tarde fria e ensolarada, ao lado da Abeille que riscava o chão com sua varinha de condão e de tanto em tanto me entregava pedrinhas geladas para guardar no bolso. 
Caminhamos mais um pouco e ela avistou uma caixa cheia de brinquedos velhos e empoeirados jogados no lixo. A princípio ela apontou dizendo: "Nossa, quanto lixo!" E eu achei que não seria necessário ter que desviá-la da tranqueira imunda que se apresentava. Mas ficou claro que aquilo era um pretexto para se aproximar da lixeira e pedir para olhar os brinquedos. Pegou um secador de cabelo quebrado e perguntou se podia levar. Eu relutei um pouco, mas cedi, pensando em me livrar do treco depois que chegássemos em casa. Mas avisei que ela poderia levar um só, para evitar que pedisse algo mais. Ao escutar o comando "levar um só", ela voltou imediatamente para a caixa da lixeira, para verificar se havia algo melhor. Eu baixei a guarda e removi uns cacarecos para ajudá-la na empreitada. Ofereci alguns bichinhos de plástico, com um aspecto bom, que ela recusou. Remexeu mais um pouco e de lá tirou seu presentinho dizendo: "Ah, meu bebezinho, vem aqui, vamos passear".  E dali saiu feliz da vida puxando atrás de si uma pequena criatura sacolejante. 
Eu fiquei tão admirada da seriedade com que ela encarou a escolha de um único brinquedo em uma caixa de quinquilharias e o valor que ela deu ao brinquedo escolhido, que fiquei refletindo sobre a simplicidade das coisas: Um passeio na estrada de terra, um brinquedo novo encontrado no lixo... Pensei em como nos encerramos em nossos mundos cheios de bugigangas e como talvez pudéssemos ser diferentes se nos desapegássemos daquilo tudo que abarrota as gavetas dos nossos armários e dos nossos corações. 
Resgatada da lata de lixo

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Apesar de...

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

(...)
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente


Apesar de você - Chico Buarque de Hollanda

sábado, 7 de maio de 2016

O calendário

Abeille já tem uma ideia de que existem advérbios temporais. Ela sabe, por exemplo, que amanhã é depois que dorme e o sol nasce. Então, já rola uma expectativa sobre quando vai ver a vovó, quando vai viajar, quando é dia de escola...
Aproveitando esta nova habilidade, resolvi fazer um calendário mensal e coloquei sobre a cama dela. Assim, ela pode dar uma olhada quando acordar e também na hora de dormir. Este mês, marquei dia das mães e meu aniversário. Conforme os dias forem passando, a gente pode fazer desenhos, marcar os dias com um X, contar quanto tempo falta para um dia especial.
Usei um pedaço de papelão, forrei com tecido e colei com fita crepe a folha do mês corrente. Quando o mês acaba, trocamos só a folha de papel por uma nova. Abeille deu umas riscadas no tecido, durante a preparação. Eu tinha visto uns prontos para comprar, feitos de EVA, mas o legal de fazer em casa foi justamente porque ela pode rabiscar à vontade e se ficar muito bagunçado, dá pra fazer outro sem gastar quase nada.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O pote de biscoitos

Relembrando a postagem do pote de memórias, inspirado pela Mari Hart, intitulei o pote de biscoitos como uma destas realizações simples e cheias de significado. 
Eu sempre tive uma atração pela vida rural. Acho charmoso, aconchegante, cheio de cores, cheiros e sabores. Com o tempo, fui percebendo que a minha atração pelo campo está também associada a um modo de vida antigo. Adoro almoço em família, café da tarde em casa, bolo de fubá quentinho, saraus entre amigos, instrumentos de corda, sopro e percussão. Sou fã de sopa de legumes e Machado de Assis.
É por isso que prezo tanto o meu pote de cavacas. Uma receita destas vulgares, com ingredientes simples e baratos, com cheiro de roça que me arranca do urbano e me conduz a um estado de espírito verdadeiramente sossegado. E o melhor de tudo é que rende tantas cavacas, em tamanhos generosos, que dá mesmo para guardar em um pote e ir comendo durante a semana e até mesmo surpreender aquelas visitas inesperadas que chegam para um café. 
Em tamanho exagerado, para mostrar como é grande o meu amor por você.